segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Perto do Fim - degustação



É um dia como outro qualquer, de um ano qualquer.
O céu apresenta algumas nuvens e uma brisa refrescante alivia o calor da estação.
Mas isso não faz nenhuma diferença para mim.
Desço do carro.
Ando alguns metros e ultrapasso o portão.
Conheço muito bem o trajeto. Tenho trilhado este mesmo caminho há um ano e meio. Já nem me dou ao trabalho de observar as pessoas que também circulam por aqui.
Ninguém, absolutamente ninguém, desvia o meu foco, porque hoje é um dia especial... Um dia sagrado para mim.
Em instantes irei encontrar-me com Lara. E os meus pensamentos es­tão inteiramente voltados para ela.
Sigo em frente, com passos seguros, embora internamente esteja trê­mulo pela emoção do encontro.
A cada vez, tento não deixar transparecer o que eu sinto, mostrando-lhe o quanto sou forte, como ela sempre me julgou ser.
Entretanto, é um esforço inútil.
À medida que meus pés avançam, meus olhos lutam contra a vontade de chorar por ela.
Todos os domingos eu a visito, pois foi num domingo que tudo acon­teceu.
Meu coração estremece de pesar ao aproximar-me de onde Lara está. Queria tê-la comigo em casa. Queria tê-la em qualquer outro lugar, menos ali e daquele modo.
Abaixo-me para entregar-lhe o pequeno buquê de tulipas brancas que trago nas mãos. São suas flores preferidas. E não são fáceis de encontrar. Algumas vezes tenho de percorrer várias floriculturas até achá-las. Mas sempre as trago. Sempre.
E precisam ser flores naturais, pois ela tinha o costume de encostar o narizinho nas tulipas à procura de um resquício qualquer de perfume.
Escoro-me na superfície fria. Cumprimento-a:
– Olá, meu anjinho, papai chegou.
Não há resposta. Jamais haverá.
Inclino-me, esticando o braço para depositar o buquê sobre o túmulo cinzento.
Fico em silêncio por alguns minutos.
E com os olhos úmidos, aliso a foto da menina de cabelos castanhos ondulados. Admiro demoradamente o seu rostinho saudoso. Mechas caem delicadamente sobre os seus ombros. Os olhos são castanhos, luminosos. O sorriso é doce e terno. Vejo-me nela, pois tem os mesmos traços. O mesmo desenho do nariz. Um pedacinho meu. Minha parte mais valiosa está enterrada aqui. Abaixo o rosto, fecho os olhos e faço uma prece.
Em seguida, ajeito as flores num vaso cimentado na cabeceira da lápi­de e retiro as tulipas antigas que deixei no domingo anterior.
Apesar das longas conversas mantidas em frente ao seu túmulo, em voz alta, ou só para mim, ainda há muito a ser dito.
O sofrimento quase me fez desistir de tudo.
Um forte sentimento de culpa me castiga, de domingo a domingo, tal qual uma sombra ameaçadora seguindo os meus passos. A sombra da morte. Ah, onde quer que eu vá, uma faca estará cravada em meu peito! E nenhum esforço farei para retirá-la. Ao contrário, eu próprio a empurrarei mais ao fundo.
– Perdão, filha. Preferia ter morrido naquele domingo. Sabe disso, não sabe? Sabe que papai a ama muito e não para de pensar um dia sequer em você? Foi um instante apenas em que desviei os olhos, anjinho. Uma fração de segundos. Como isso pôde acontecer? Era nosso primeiro pas­seio juntos, sem a mamãe. Apenas nós dois. Deixei você brincando com sua bola colorida e seu baldinho de areia. Afastei-me uns passos apenas, para comprar sorvete. Oh, as imagens não me saem da cabeça! Como pude não pressentir o perigo? O mar parecia tão calmo. Jamais imaginei que você fosse sair de onde estava, correr para a água atrás de sua bola e ser levada pelas ondas daquele jeito. Eu me joguei. Eu tentei, filha! Eu tentei! Segurei seu corpinho nos braços e chamei por socorro, quando não consegui fazer você respirar. Achei que ficaria tudo bem, mas você tinha engolido muita água. Ah, meu Deus, quando confirmaram sua mor­te, gritei desesperado! Perdi o chão. Fiquei sem ar. Não queria acreditar. Meu peito parecia que ia explodir. Você tinha apenas três anos... E eu fui incapaz de protegê-la. Não vou me perdoar nunca por ter me descuidado e tirado os olhos de você.
Respiro fundo.
Demoro para me despedir de Lara.
Ergo-me.
Desvio a atenção para o túmulo ao lado. Coloco o outro buquê de tuli­pas que trouxe. Amarelas. Belas tulipas amarelas.
Olho longamente para a foto na sepultura. E uma onda de saudades atinge o meu peito em cheio. Sylvia. Meu amor desde a universidade. Fe­cho os olhos e me transporto para tempos afortunados. Saboreio a sensa­ção dos dias perfeitos que vivemos. Revivo os nossos risos, as conversas e os silêncios que diziam tanto. Recordo o dia do nascimento de Lara e a felicidade que compartilhamos. Penso nos planos que fizemos para uma vida inteira que viveríamos juntos. E confesso a ela o quanto é difícil estar cheio de amor e não tê-la viva para amar.
Rezo em silêncio.
Depois me despeço.
Saio do cemitério somente após me acalmar o suficiente para poder dirigir de volta para casa.
Para elas a vida findou. Para mim a vida prossegue.
E não há benefício algum em ser desse modo.
Manter-me vivo, lembrando dia após dia a pior de todas as lembran­ças, será o meu castigo, a minha penitência.
Retorno ao carro.
Aperto fortemente as mãos no volante.
Preciso sentir o domínio sobre algo.
Preciso ter qualquer coisa sob o meu controle.

Antes de ligar o motor, meus pensamentos viajam para o instante em que minha esposa soube da morte da filha.
O rosto amável de Sylvia desfigurou-se em agonia. Seus gritos ainda ecoam em meus ouvidos. “Não é verdade! Ela não pode estar morta! Por que deixou o meu bebê morrer? Prometeu que iria cuidar dela. O que você fez com a minha filha, Jeff?”
Fiquei perplexo, angustiado. Sylvia desmaiou e precisou de atendi­mento médico. Quando recobrou os sentidos, recusou meu apoio, des­cartou o meu abraço, rejeitou a minha aproximação, tanto naquele ins­tante terrível, como nos dias seguintes. Nem mesmo a nossa separação, trouxe-lhe conforto. Mudou-se para a casa dos pais. E seis meses após o falecimento de Lara, Sylvia foi encontrada sem vida em seu quarto. No chão, um frasco vazio levantou a suspeita sobre ingestão de comprimidos em excesso.
Através de autópsia, comprovaram que a causa da morte foi overdose de remédios para dormir.
Quando eu soube da morte de Sylvia, peguei o carro e saí dirigindo feito um ensandecido, pisando fundo no acelerador. Transtornado e cego pelo desatino, perdi o controle da direção, atravessei a pista e bati contra um poste de concreto. Por pouco não atingi outro carro, ou transeuntes, causando uma tragédia maior. Sofri cortes na testa, fratura na clavícula e numa das pernas, ficando quase um mês em coma por conta de um co­águlo no cérebro, causado pelo impacto. Quando abri os olhos e vi onde estava, fui invadido por uma tristeza profunda.
A vida me queria vivo, ignorando inteiramente o meu desejo de mor­rer, para que eu pudesse pagar pelos meus erros?

Paro de pensar nos fatos do passado. Passo as mãos no rosto e me olho no espelho do carro. Estou mudado. Onde está aquele Jeff que já fui um dia? O homem que me encara no reflexo tem um aspecto abatido. É jovem, pois tem apenas trinta e dois anos, mas apresenta um semblante amargurado e sofrido.
Há poucas esperanças para mim, penso, olhando a figura refletida. Mas estarei aqui, com buquês de tulipas, no próximo domingo. Eu não as abandonarei mais. Tampouco virarei as costas para Lara outra vez. E se o que me falta é um sentido para continuar vivendo, este me parece grandioso o suficiente.
Ligo a ignição e me encaminho para casa.
Quinze minutos depois, passo pela portaria e entro no condomínio.
Trata-se de um residencial fechado, de alto padrão, com jardim, praça, passeios arborizados, um lago artificial, bosque de araucárias, trilhas e área verde preservada.
O ar puro do lugar, sua tranquilidade, segurança e espaços de lazer em abundância, foram determinantes na hora de escolher um lugar para morar com a família. Todas as construções são de dois pisos, com peças espaçosas, ensolaradas, sendo as fachadas revestidas em tijolos aparentes brancos, em estilo normando, com os telhados inclinados.
É nesta casa tomada por lembranças que eu resido.
Estaciono. E não guardo o carro na garagem, pois pretendo sair nova­mente quando a noite cair.
Aos domingos, após visitar Lara e Sylvia, costumo jantar numa canti­na no centro da cidade. O proprietário é um amigo antigo e leal. Ângelo. E sem que eu precise avisá-lo, ele garante a reserva da mesa. É um hábito que mantenho regularmente. Faz-me bem o movimento do ambiente. O som dos talheres. O cheiro dos molhos. As vozes animadas. Os rostos corados pelo consumo de vinho e pelo calor humano.
Costumo sentar sozinho num canto afastado, tendo uma boa visão das mesas. Enquanto janto, fico observando as pessoas. Gosto de me alimen­tar da energia vibrante que emana delas. Isso me revigora.
De algum modo, assistir outras vidas vivendo suas vidas, me ajuda a seguir adiante com a minha.
Assim que entro em casa, vou direto para a cozinha.
Pego um copo, encaixo no dispenser da porta do refrigerador e sacio a sede com a água gelada.
Olho pela janela e avisto a edícula ao fundo, onde mora Adélia e seu marido Joel.
Adélia é a cozinheira e ajudante nos serviços da casa. Joel cuida do jardim, faz pequenos reparos e auxilia a esposa com as compras no su­permercado.
Aos domingos, eu os libero para aproveitarem uma folga merecida. Sem filhos, com familiares morando próximos daqui, eles costumam sair para visitar os parentes ou fazerem passeios, retornando somente ao anoi­tecer. Adélia deixa o almoço pronto para mim, bastando apenas colocá-lo no micro-ondas.
Ainda é cedo.
Tomarei uma ducha e descansarei um pouco.
Só mais tarde sairei para jantar.
Subo em direção ao segundo piso. E quando passo em frente ao quar­to de Lara, paro. Passo a mão na madeira da porta, como se fizesse um carinho em minha filha. Não há mais nada ali. O cômodo foi esvaziado. Liguei para uma instituição de caridade e doei a mobília e todos os brin­quedos.
Exceto por um porta-retratos, acomodado no aparador da sala de jan­tar, em que estamos os três juntos felizes, não existe nenhum sinal de Syl­via e Lara por toda a casa. Cada objeto pertencente a elas foi removido. Mantê-los, seria um tormento.
E de tormentos, a minha mente já está repleta o suficiente.
O quarto do final do corredor, onde vivi com Sylvia os meus momen­tos mais intensos e prazerosos, encontra-se remodelado.
A decoração anterior misturava o branco e o laranja, em cores vibran­tes, bem ao gosto de Sylvia. Agora, predominam o preto e o cinza, cujos tons são fechados e frios, como eu.
Tomo banho. Puxo da gaveta do closet uma bermuda jeans e uma ca­miseta branca de mangas curtas. Visto-as.
Nesse instante, o celular toca. Olho a identificação da chamada e o nome no visor não me faz ter vontade de atender. Milton Weber. Deixo tocar. Outra hora falarei com meu pai. Ele sabe que aos domingos não me disponho a falar com ninguém.
Guardo o celular no bolso. Sento-me na poltrona do quarto, pensa­tivo. E se o assunto for importante? Sou vice-presidente na seguradora da família. E meu pai administra os negócios, sem ligar para os dias da semana.
Seja como for, hoje é um dia para ser respeitado. Já o alertei sobre isso. Amanhã nos veremos no escritório, então eu...
Nisso, uma rajada de vento faz abrir a porta-janela da sacada, que de­veria estar mal fechada, fazendo a cortina flutuar e enrolar-se num vaso de plantas próximo.
Preparo-me para ajeitar a situação e surpreendo-me com a mudança no tempo.
O céu escureceu de repente.
Parece noite lá fora. E são apenas dezoito horas.
A brisa de antes, deu lugar a ventos fortes. Irá chover em breve, ao que tudo indica.
Um relâmpago corta o céu, seguido de um trovão.
E no mesmo instante, escuto um grito. Fico em dúvida se foi isso mes­mo, por conta da trovoada. Olho para fora e não vejo nada de estranho. As ruas do condomínio estão desertas.

Assim, julgando tratar-se de um engano, levo as mãos para empurrar a porta, quando um som agudo rasga os ares e me faz ter certeza de ter ouvido corretamente.
Outro grito.
Sim. Desta vez escuto nitidamente.
É alguém pedindo socorro. E é uma voz de mulher.
Minha impressão é de que o som veio do bosque, localizado no outro lado do lago artificial.
Num impulso, saio para acudir quem está pedindo ajuda.
Descalço, sem pensar em nada, desço a escada correndo.

Chego na rua e disparo pelo caminho de pedras, em direção aos arvo­redos.

[...]

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TÍTULO: Perto do Fim - AUTORA: Rosa Mattos
EDITORA: Selo Jovem - PUBLICADO EM: 2017
 PÁGINAS: 246  - CAPÍTULOS: 30
CATEGORIA: Romance, drama, suspense
OBS.: Entregas somente no Brasil.

O livro está na BIENAL do Rio, Pavilhão Verde, Rua N, Stand 10, 
Editora Selo Jovem. Perto do Fim e O medo de Virgília. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Descobertas


Vitória arregalou os olhos, não cabendo em si de contentamento. E se coubesse, a alegria nem caberia na alegria e subiria faceira, indo fazer rir as nuvens.


O jardim da casa nova era uma novidade nunca vista antes por ela. O apartamento pequeno, com vista para outros prédios, a fizera pensar que pessoas nascessem em blocos, flores só crescessem em vasos, pássaros vivessem apenas em gaiolas, gatos e cachorros morassem em sofás e tapetes e, eventualmente, em sua cama.


Na pracinha onde costumava brincar, as flores viviam em grandes vasos de cimento. Agora, com as mãozinhas na boca de puro espanto, descobria que elas também nasciam do chão, direto da terra e cercada pela grama verdinha e fofa.


Os pais, zelosos com a saúde da filha, resolveram comprar uma casa, pois queriam que ela tivesse contato com a natureza. Vitória apresentara sintomas alérgicos e o ar fresco iria lhe fazer bem - recomendações médicas - que trataram de seguir.


Dando pulinhos, a menina explorou o terreno, gritando o tempo todo "olha! olha!". Com os pezinhos descalços, correu pela grama, tocando nas plantas e exclamando para os pais "como o pátio novo tinha um cheirinho bom".


Para completar a alegria da filha, os pais montaram uma pequena barraca no jardim, para que Vitória pudesse brincar e se proteger do sol. Cansada com tantas novidades, a menina deitou e dormiu em seguida, com o rostinho corado e feliz. Então, sentiu algo subindo pelo braço, causando-lhe cócegas. Abriu os olhos e viu uma joaninha. A coisa mais linda que já vira. Que bichinho seria aquele? Não sentiu medinho. Amou a criaturinha. Colocou-a nas mãos. Alisou. Contou-lhe historinhas. Conversou bastante com a pequenina visitante, revelando-lhe todas as lembranças que seus três anos de memória foram capazes. Exausta, adormeceu, esquecendo a joaninha, que ficou passeando dentro da barraca.


Quando acordou, já estava de pijama, deitada em sua cama. Era uma daquelas mágicas que amava mais que tudo. Quando dormia estava num lugar, quando acordava estava em outro. E os pais sempre por perto.


No dia seguinte, foi para o jardim brincar. Esperou pela joaninha, que naquele dia não apareceu. Contou para a mãe sobre o bichinho que parecia uma bolinha. A mãe riu muito e explicou para Vitória tudo o que sabia sobre joaninhas.


Os dias correram. A menina cresceu. E como é próprio da vida, os momentos vividos vão ficando para trás, mas sem saírem de dentro.


Tornou-se uma linda jovem e bióloga dedicada. Adquiriu um gosto inexplicável por joaninhas. Não sabe dizer a origem de sua afeição, mas sempre que encontra algum objeto com formato do bichinho, fica admirando, fascinada. Já comprou adesivos para seu notebook, mouse, pen drive, agendas, estojos, mochilas, cadernos e vários utensílios com o tema. Seu atual sonho de consumo é um celular com o formato de uma joaninha.


E quando, por curiosidade, perguntam a ela o motivo desta sua preferência, ela encolhe os ombros e responde:


- Sei lá! Gosto é gosto.



EXTRA! EXTRA! Meus romances 
PERTO DO FIMO MEDO DE VIRGÍLIA 
estarão na BIENAL Internacional do RIO! 
Pavilhão verde, Rua N, estande 10, 
Editora Selo Jovem.

Infelizmente não vou poder ir, mas 
os meus livros estarão lá a venda.

* obrigada pelas visitas e comentários *


terça-feira, 4 de abril de 2017

Pânico na escola



Redação: “Cachorrinhos”. Os alunos pensaram por um instante e começaram a redigir. Exceto um deles, que permaneceu imóvel, pensativo. Não tinha cachorros. Nem gostava muito deles. As ideias não vinham. As mãos tremiam. O papel mordia. A caneta fugia. Sua mente vazia.
O tempo passando. 
Mirava a folha, esperando um milagre. Então viu os filhotes. Vieram da última linha e foram subindo, saltando e latindo sem parar. Espantado, olhou para os lados. Silêncio na sala. Ninguém parecia notar o alarido. Todos concentrados. 
Confuso, desenhou uma vasilha e encheu de bolinhas. Quem sabe se vissem a ração parassem com aquela correria e o deixassem pensar. "Malditos cães!" 



  
Os minutos disparavam.
Os cãezinhos, deitando e rolando. Fez um pote com água. Eles beberam um pouco e continuaram a baderna. Como iria se concentrar com tanta algazarra? Talvez precisassem beber direto da fonte. Ao lado das vasilhas, desenhou uma cachorra, deitada, com suas tetas salientes, cheias de leite. Deu certo! Os danadinhos mamaram felizes. Ainda bem que sabia desenhar!
Tic-tac. Apenas mais 15 minutos.
Ao contrário de sua inspiração, o suor brotava, escorria de sua testa, pingando no chão da sala, onde todos escreviam, menos ele. 
Os minutos cruelmente voando. Os bichanos ainda estavam lá. Agora pulavam em cima da barriga da mãe. "Que bagunça! Saiam da minha folha!" Alimentados, brincavam de um lado a outro, correndo e latindo mais alto do que antes.
Precisava urgente escrever qualquer coisa. Não estava nada bem naquela matéria.
O pavor agora tomara conta do pavor e se espalhara por seus medos, encrespando sua testa, escurecendo suas unhas, arroxeando seus lábios, gelando suas mãos e o tornando um homicida em potencial. Só restara uma coisa a fazer e ele o faria: eliminar os invasores de sua folha! 
Tic-tac. Dois minutos.
Pegou a borracha e preparou-se para matar todos os desenhos, no exato instante em que os cachorrinhos começaram a morder e mastigar, destruindo por completo a folha de papel.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Perto do Fim - pré-venda


Olá pessoal, trago uma novidade maravilhosa, meu terceiro romance, PERTO DO FIMentrou em pré-venda no site da Editora Selo Jovem.

Em 2015 fiz autopublicação pela Agbook e o livro tinha uma capa diferente desta.

Agora, pela Selo Jovem, o romance ganhou uma capa mais elaborada e teve diagramação e revisão de textos renovados.  



SINOPSE:

Jeff Weber é um homem solitário e inconformado com o seu destino. Tentou acabar de vez com o sofrimento, jogando o seu carro contra um poste de concreto, mas sobreviveu.

Então, um dia, Jeff escuta da sacada de sua casa, uma jovem pedindo socorro e corre até lá para ajudá-la, sem saber que esse seu gesto daria início a um grande pesadelo. 

Jeff liberta a jovem Valentina das mãos do agressor e recebe ameaças dele, por ter surgido na hora errada. O sujeito foge, mas no mesmo dia, coloca em prática as ameaças. 


Após isso, Jeff vê sua rotina pacata sofrer uma guinada vertiginosa e uma série de acontecimentos o faz pensar que sua vida corre perigo e o homem falava sério. Ele só não entende, qual o motivo para tanta fúria e desejo de vingança. 


Ao mesmo tempo em que se vê perseguido e na mira de um maníaco, Valentina surge como um sopro de esperança em sua vida, trazendo um pouco de paz ao seu coração acostumado a estar mergulhado em sombras. 

E quando ele passa a acreditar que finalmente tudo se resolveu, algo inesperado acontece, jogando Jeff num dilema desanimador. Agora, ele terá que ser realmente forte para superar o novo obstáculo que o destino colocou em seu caminho, se quiser viver. 

Aproveitem o preço promocional para adquirir seu exemplar na pré-venda.
Por apenas R$28,00 + frete fixo de R$8,00 para todo o Brasil.

Estou assinando a revisão integral de textos e co-autoria na criação da capa.
 Espero que entendam o motivo do meu sumiço na blogosfera. rsrs



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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Um caso isolado


Algumas pessoas possuem um dom especial para a autodestruição. Por isso quando eu soube da morte de Rubens não cheguei a ficar completamente chocado. Os poucos amigos que ele tinha imaginavam que um dia algo assim pudesse acontecer. E olha, vou te confessar que me sinto culpado por não ter ido conversar com ele.

Duas semanas atrás, Rubens me telefonou. Pediu para eu passar por lá e levar comida. Estranhei aquele fio de voz, meio rindo, meio chorando, num emaranhado de falas sem sentido. Mas Rubens sempre foi um sujeito esquisitão. Falou pra todo mundo que iria se afastar para escrever um romance e não queria ser incomodado. Bom, eu fui parceiro até onde pude ser, disso ninguém vai poder me acusar. Atendemos o pedido dele. E nem poderia ser diferente, porque o cara exigiu aos berros, num tipo de surto, que o deixassem em paz até ele terminar o livro. Lembro bem. Estávamos os quatro amigos bebendo num boteco qualquer, sentados numa mesa na calçada. Para variar, fizemos piada da empolgação de Rubens. O cara realmente tinha um romance inteiro pronto dentro daquela cabeça alucinada. Costumávamos dizer que ele era genial. Lógico que isso o deixava ainda mais entusiasmado. A verdade é que achávamos mesmo traços de genialidade no que ele escrevia. Demos apoio. Incentivamos. Tomamos um porre memorável naquela noite...

E foi a última vez que vimos Rubens com vida.

Três meses depois, nada do livro. Tentamos contato, sem sucesso. Parou de publicar nos sites que participava. Não atendia telefone. Não respondia mensagens.

Um de nós poderia ter ido lá. No entanto, perdemos tempo num jogo de empurra. Cada um ficou achando que o outro iria. Ninguém foi. Ficamos preocupados, mas estávamos todos ocupados demais para pegar a estrada e ir até o lugar onde ele escolheu para se esconder. Aos poucos, esquecemos dele. Esta é a mais pura verdade.

Sei que isso é cruel de dizer, mas o sujeito era um doido e por causa dele quase fomos presos certa vez. Sem contar as muitas confusões em que nos metemos por causa de suas pirações. Melhor nem lembrar disso. Nossas vidas estão bem mais tranquilas agora.

De certa forma, empurramos ele para a morte. O cara não tinha grana. Não sabia cozinhar um ovo. Chegava a ficar dias sem dormir. Abusava do cigarro, da bebida e consumia uns chás para abrir as portas da imaginação. Devíamos ter discordado daquela maluquice de querer se enfurnar e se isolar do mundo.

E, veja bem, só estou te contando isso porque sei que me entende. Aliás, nas horas em que eu mais preciso, recorro a você, pois eu posso desabafar, sem ser criticado ou julgado.

Pois então, hoje ficamos sabendo que ele tinha telefonado para a polícia também. Dizem que ele sussurrou um pedido de socorro, depois ouviram um baque e mais nada. O plantonista que atendeu a ligação não deu muita atenção e não procurou localizar o endereço da chamada. Achou que fosse trote. Disse que é comum fazerem isso. Sem contar que trocara o turno com outro colega e virara a noite trabalhando. Além do sono e cansaço, tinha levado um fora da namorada, estava de saco cheio daquele emprego e de ter que ficar salvando pessoas que só faziam besteiras.

Ao menos, essa foi a explicação do plantonista para o descaso em acionar o alerta para socorrerem Rubens.

Talvez não houvesse mais tempo. Talvez ele fosse morrer de qualquer forma. Não se sabe. Esta é uma das tantas dúvidas que entrará para o rol das coisas jamais sabidas.

O fato é que quando enfim botaram a porta abaixo e entraram no pequeno e fedorento chalé, o corpo de Rubens jazia sobre a madeira gasta. Não se sabe ainda a real causa da morte. Falaram em parada cardíaca. Rárrárrá, como assim? Que diagnóstico genérico! O Rubens deve estar dando pulos de raiva (esteja onde estiver), porque detestava incompetência.

Talvez ele tenha morrido de inanição. Quem sabe teve uma das tantas visões psicóticas que costumava ter e acabavam resultando em textos espetaculares. Quem sabe. Dizem que o corpo estava só pele e ossos e o coração teria parado de bater por total falta de energia. Como uma máquina sem combustível. Como um pneu murcho. Como um balão esvaziado. Como qualquer coisa oca, sem nada dentro.

As suspeitas são de que ele ficou escrevendo até se esvair completamente. Levantaram essa hipótese, em razão do texto ainda em aberto na tela do computador. Depois do título “Uma Ode aos Bons”, estavam escritas duas mil, oitocentas e vinte e duas páginas. Um F encontrava-se em aberto no final do texto. Seria um efe de Fim? Não se sabe. Nunca saberemos se ele pretendia dizer mais alguma coisa. Especulo que sim, porque Rubens era demais para ele mesmo.

O pai de Rubens veio da Espanha para o enterro do filho. Quanto a mãe, falecera ao dar à luz.

Rubens morou um tempo com uma tia, até ser convidado gentilmente a procurar outro lugar para ficar. Foi quando passou a tocar em boates para conseguir grana suficiente para pagar a pensão mais ou menos limpinha onde foi se enfiar.

O pai de Rubens, que sempre o criticara e jamais dera valor a sua arte, pegou o arquivo e mandou para uma editora avaliar a obra. Resolveu fazer isso depois de ler as primeiras páginas e se impressionar com o talento do filho. O livro foi editado, dividido em várias partes, publicado com autoria póstuma e se tornou sucesso de vendas. Claro, o pai de Rubens abocanhou a grana toda.

Então, isso foi o que aconteceu. Guardaremos para sempre o segredo, a dúvida e a culpa. Eu e meus amigos não nos vemos mais.

Só mesmo a você, meu cúmplice, meu diário querido, posso revelar a verdadeira versão dos acontecimentos.

  

Um Feliz 2017 para todos nós! 😃💋
Obrigada a cada um de vocês pela companhia no ano que passou.

Desculpem a ausência. Fiz uma viagem de férias e agora aos poucos estou retornando aos meus hábitos e ritmo frenético de todo dia. rs


sábado, 26 de novembro de 2016

Escândalo na adega



A tranquilidade reinava na adega da família Valduga. Fora assim, até uma certa manhã, quando um novo e inusitado hóspede chegou, surpreendendo os atuais moradores.

— Que barulho foi esse?

— Ai, que médoc, vieram me buscar!

— Suavize-se, Amadeu, não precisa ficar bordeaux. Ele veio trazer uma garrafa e não levar, viu?

— Country Wine, olha o salton que o Marco Luigi deu de susto. Rárrárrá!

— Lovara, você que está mais próxima, conseguiu ver quem é?

— Bem que eu tentei, mas o Lacave quase Pizzato em mim.

— Viram? Humm. Colocaram ele afastado da gente. Por que será, hein?

Senhor Valduga, alheio ao farfalhar das garrafas, acomodou o nobre vinho, girou os calcanhares e saiu.

Mal ele fechou a porta e voltaram a indagar sobre o ilustre misterioso.

— Olááá!!! Qual seu nome? Quem é você? Por que ficou distante?  gritou Chalise, não aguentando mais de curiosidade.

— Silence, s'il vous plaît! Je suis, Château Lafite Rothschild.

— Hein? O que ele está dizendo? Alguém traduz pra mim, por gentileza?

— Ele deve ser importado, Chalise. E pelo biquinho que fez ao falar só pode ser francês  respondeu Bartolo, tinto de ciúmes.

— Esses ricos emergentes, vou te contar, são uns esnobes. Ao invés de valorizarem produto nacional, ficam trazendo estrangeiros, só pra se exibirem para os amigos — reclamou uma garrafinha sem rótulo, instalada nas fileiras mais humildes.

Rothschild se empertigou todo, pois não estava acostumado com hostilidades. Seco, tratou de se defender, mas com elegância, avéc élégance, oui monsieur.

— Je suis o que há de melhor nos tintos bordaleses. Ao contrário de vocês, eu fui esmagado com os pés. Sou famoso. Respeitem-me e façam silêncio. Estão me perturbando!  falou o francês, num francês miscigenado pela maturação.

— Só porque é importado, se acha melhor que nós? Que audácia!  exclamou, Chalise, embaçada de raiva.

Rothschild nunca fora tratado por tantos casca grossa num mesmo ambiente. Esqueceu a elegância e visivelmente atijolado, porém mantendo a tonalidade rubi brilhante, partiu para o ataque.

— E você, nem para fazer quentão serve!  disparou.

— Rárrárrá! Não sou importada, mas sou muito requisitada, viu?  retrucou, Chalise.
 
— Oui, por menos de quinze reais, qualquer um leva você para casa  replicou.

— O que está insinuando? Escutou isso, Bartolo? Vai deixar ele falar assim comigo? Faça alguma coisa!!!

— Chalise, minha uva, o francês só está de gabolices.

— Mas é um moscatel mesmo. Que tola eu fui em aceitar seu bouquet. E pensar que Marcus James e Chandon espumaram um dia por mim e eu recusei pra ficar com você  choramingou, rolando para outro lado.

— Chalise, não diga isso. Perdoa-me. Ando de miolo rosé, ultimamente.

— Eu tenho uma safra a zelar, viu, Bartolo! Está certo que não fui esmagada com os pés, mas venho de um parreiral digno, fique sabendo.

— Chalise, você é tão over. Está exagerando. Nem é para tanto, vá.

— Oh, Bartolo, quer saber? Merlot tudo entre nós.

— Acuda-me, Frei Damião! Não sei viver sem minha uvinha  suplicou.

— Oremus, meu jovem. Iomerê, sangue da uva tem poder. Cante-lhe uma canção. Seja mais doce, mais suave. Chalise é adamada, pode estar naqueles dias  respondeu-lhe o Frei.

— Pois se até a aurora Chalise não me desculpar, fugirei para a colina e cometerei vinhocídio.

— Por mim, você pode até avinagrar. Acabou, Bartolo. Pode aclamar por todas as videiras de todos os países, em châteaus, platôs, onde for! Basta! Fim!  revoltou-se, Chalise.

O francês, vendo que o assunto não era mais com ele, tratou de manter-se frio. Nem por todos os barris de carvalho iria se deteriorar por aquelas cepas inferiores. Aquietou-se. Com muito requinte e fineza, ficou torcendo para que se quebrassem de inveja.

A adega silenciou novamente.

Passados vinte minutos, Chalise perguntou:

— Bartolo?

— ....

— Bartolo???

— ....

— Bartolooooooooooooooooo?

— Sim!!! Que foi?

— Você ia mesmo se vinhocidar se eu não o perdoasse?  perguntou Chalise, empurrando Almadén que estava entre os dois.

— Sim!

— Ahh, Bartolinho! Vem cá, vem?

E mais que depressa, ele foi.



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A essência da felicidade



Vigiado pela paisagem verdejante dos pampas
Assentou duas achas de lenha no fogo de chão
Arrumando melhor o chapéu de palha trançada
Que teimava em sair ao minuano limpo e seco

Tirou os arreios do cavalo e alisou-lhe o lombo
Assobiando a cantiga em parceria com o vento
Que se espalhava pelo mar verde das coxilhas
E se ia embora espantando o frio e a quietude

Rodeado pelo cheiro das reses que pastejavam
Estendeu o corpo cansado da lida e mirou além
Construindo sonhos e planícies de simplicidade
No crepitar das chamas a natureza se enlaçava

Fechou os olhos e pensou, antes de adormecer
Como um homem pode ser feliz com tão pouco
Bastava-lhe o cheiro da terra e o calor da vida
Que brotava em torno das abas de seu chapéu